sábado, 2 de Maio de 2009
Memórias de uma mulher impossível
Trecho do documentário Memórias de uma mulher impossível de Márcia Derraik. Traça uma espécie de mosaico sobre a vida e obra de Rose Marie Muraro - física e economista eleita patrona do feminismo...
domingo, 17 de Agosto de 2008
Por uma nova ordem simbólica

Cada espécie animal percebe o real segundo a vida que lhe é peculiar. A espécie humana relaciona-se com ele por meio de seus sistemas simbólicos. E é exatamente por esse motivo que ela é a única espécie que o pode transformar. Mas, embora a capacidade de simbolizar seja inata, seu uso varia ao longo dos tempos.É pelos sistemas simbólicos que os seres humanos pensam, falam, se comunicam e criam as suas leis de comportamento e, portanto, os seus sistemas sociais, políticos e econômicos. Esses sistemas variaram muito nos 2 milhões de anos de vida de nossa espécie, principalmente nos últimos 10 mil anos do nosso período histórico. O grande erro dos pensadores foi tomar os sistemas, que foram socialmente construídos, como biológicos e imutáveis. Isso aconteceu, por exemplo, com os psicólogos do fim do século 19 e do início do século 20, principalmente Freud e Lacan. Freud afirma que a natureza foi madrasta com a mulher porque ela não tem a capacidade de simbolizar como o homem. Lacan afirma que o simbólico é masculino e que "a mulher não existe". Não existe porque não tem acesso à ordem simbólica. A palavra pertence ao homem e o silêncio pertence à mulher. Segundo ele, o simbólico é estruturado pela cadeia de significantes na qual o grande organizador é o falo. Este, ao mesmo tempo, é metáfora do órgão sexual masculino e do poder. O poder -que é essencialmente masculino- é o "grande outro", ao qual, implícita ou explicitamente, todos os atos simbólicos humanos se referem. Incluem-se aí os pensamentos, os gestos, as leis e até os sistemas macro (políticos e econômicos). E, de fato, ele tem razão. A realidade humana é gendrada (gendered), como gendrados somos todos nós. Todos os sistemas simbólicos atuais foram sendo fabricados pelos -e para os- homens. Leis, gramática, crenças, filosofia, dinheiro, poder político eeconômico.Na última metade do século 20, no entanto, algo novo aconteceu. Os dois grandes resultados da sociedade de consumo são a entrada da mulher no mercado mundial de trabalho -uma vez que o sistema fez mais máquinas do que machos- e a destruição dos recursos naturais -porque os retirou da natureza num ritmo mais acelerado do que capacidade de reposição dela.
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As mulheres já estão entrando nos sistemas simbólicos masculinos; ajudando a desconstruir a ordem universal de poder. As mulheres entram nos sistemas simbólicos masculinos no momento em que esses estão se mostrando implacavelmente destrutivos em relação à vida. A tarefa monumental que os movimentos de mulheres e as mulheres têm hoje é a de construir uma nova ordem simbólica não mais centrada sobre o falo (o poder, o matar ou morrer que é a sua lei), mas uma nova ordem que possa permear desde o inconsciente individual até os sistemas macroeconômicos, mas, agora, numa nova ordem estruturada sobre a vida. Essas reflexões não poderiam estar sendo feitas se esse trabalho já não estivesseem curso. Já estão sendo construídos consensos entre os povos contra uma dominação global que exclui o grosso da humanidade e sobre uma nova ordem que inclua uma relação complementar entre os gêneros, uma família democrática, um tipo de relação econômica que não transfira a riqueza de todos para os poucos que dominam, que inclua relações comerciais e econômicas menos desumanas e destrutivas. As mulheres já estão entrando nos sistemas simbólicos masculinos. E não só nas instituições convencionais (empresas, partidos etc.), mas também em outras, muitas vezes na contramão da história (nas lutas populares, ecológicas, pela paz etc., onde são a grande maioria). Elas estão construindo uma nova ordem simbólica, na qual o "grande outro" é a vida (viver e deixar viver), e ajudando a desconstruir a atual ordem universal de poder. Se não trabalharmos nessa profundidade, por mais que se transformem as estruturas económicas antigas, elas tenderão a voltar. Ou substituímos a função estruturante do falo pela função estruturante da vida ou não teremos mais nem falo nem vida.
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(Publicado na Folha de São Paulo Tendências e Debates - 08/03/01 )
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Autora-Rose Marie Muraro, 70 anos, escritora e fundadora do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher
(tambem publicado aqui)
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domingo, 1 de Junho de 2008
entrevista com Rose Marie Muraro

domingo, 20 de Abril de 2008
"O mundo com mais mulheres tem menos guerra, menos violência e menos corrupção"

ALGUNS DOS LIVROS






A mulher dos impossíveis
Porque sempre tive preguiça. Me pediam isso há 20 anos, mas nunca tive narcisismo suficiente para escrever memórias. Além do mais, é um processo muito difícil. Só escrevi 10 % do que vivi. Se não fosse assim, o livro teria no mínimo 1500 páginas.
Como surgiu a idéia do título do livro?
Da minha própria trajetória de vida. Eu sempre fiz coisas impossíveis, desde que nasci. Estive oito vezes em perigo de vida, só vinguei porque a minha família era muito rica. Tenho sérios problemas de visão e quando eu tinha cinco anos o médico me proibiu de aprender a ler, mas eu aprendi e nunca mais parei. Depois, fui ser escritora e editora, tudo o que era impossível fazer. A minha vida inteira foi assim. Sempre achei que ser feliz seria muito chato, então eu sempre escolhi aquilo que tivesse mais risco.
O que a escolha por caminhos mais difíceis trouxe de positivo para sua vida?
Uma amplitude que as outras pessoas não têm. Porque se você quer ser feliz você diz não a uma série de coisas. Quem quer ser feliz é medíocre. Se eu quisesse ser feliz não teria feito nada do que fiz.
Como você começou a participar dos movimentos sociais?
A minha família era muita rica, eu via muitas brigas pelo dinheiro, então, resolvi deixar aquilo para trás e fui construir um mundo novo. Foi neste momento que conheci o então Padre, Hélder Câmara e me tornei uma das pessoas da equipe dele. Tive a oportunidade de ver como ele rompeu com a aliança da igreja com os poderosos, que tinha durado 1700 anos. O Papa João XXIII chegou a mandar pessoas de Roma para ver como o nosso trabalho estava sendo feito, a fim de escrever suas encíclicas sociais. O trabalho de Dom Helder foi um projeto piloto para o resto do mundo.
O que te conquistou para você nunca mais largar os movimentos sociais?
O fato dele não ser assistencialista, de procurar mudar as estruturas do país. O trabalho que realizávamos se tornou mais importante que todo o movimento comunista convencional.
E o golpe de 64? Quanto ele prejudicou o projeto de Dom Hélder?Ele foi dado em parte contra nós. Chegamos a pensar que tudo aquilo que estávamos construindo tinha morrido, mas era somente impressão. Logo, ele voltou a germinar.
Como foi esta época para você? O que fez neste período?
Em 1970, fui indicada para trabalhar na editora Vozes. Lá, tive a chance de publicar trabalhos ligados à igreja progressista, que buscava transformar não só as pessoas como as estruturas políticas e econômicas. Os livros militantes que publicávamos vendiam tanto que a Vozes, que estava à beira da falência, acabou se tornando uma grande editora. E se existia tanta gente que comprava é porque tinha gente que continuava a trabalhar para a mudançadas estruturas sociais brasileiras, mesmo na pior época do regime mili
tar.
Foi neste período que você conheceu o frei Leonardo Boff?
Sim. Naquela época, Leonardo queria traduzir livros alemães. Mas eu disse que era melhor ele primeiro ir à favela para depois falar comigo. Quando ele voltou veio com um livrinho chamado Jesus Cristo Libertador. Nele, Boff sistematizou toda a ação de Dom Hélder e começou um imenso trabalho chamado Teologia da Libertação.
E sua aproximação com o feminismo? Como aconteceu?
Nesta mesma época, eu trouxe a Betty Friedan para o Brasil e comecei o trabalho feminista. O movimento de mulheres e a Teologia da Libertação, que eu considero os dois grandes movimentos sociais do século XX, nasceram juntos e se desenvolveram nos anos 70. Hoje, o movimento de mulheres é considerado o movimento social mais importante do século no mundo inteiro e a Teologia da Libertação, no Brasil, está concretizando tudo aquilo que a gente desejava antes de 64. Veja você o poder de uma editora, ela é capazde esculpir o futuro.
Qual a importância de uma editora para um país? Como escolhe seus autores?
É fundamental. Se um país não tiver um pensamento próprio vai absorver as idéias que o sistema impõe. Se você não construir um pensamento econômico baseado nas nossas necessidades você vai sempre ser escravo do FMI. A primeira condição para a invasão econômica é a invasão cultural. Tudo o que eu fiz até hoje foi editar brasileiros com força de pensamento para enfrentar o establishment do mundo desenvolvido.
E a mulher brasileira? Quais as conquistas alcançadas por ela?
Muitas. A mulher brasileira possui uma noção da sua condição que o resto da América Latina ainda não tem. Aqui, a mulher já é metade da força de trabalho. Os movimentos populares estão nas mãos das mulheres, 70% dos militantes são do sexo feminino.
Como ficam os movimentos sociais com a chegada da globalização?
A globalização é a mundialização do poder das culturas dominantes. Ele é um movimento tão desumano que concentra o poder nas mãos de pouquíssimas pessoas. Hoje, existem 348 grupos no mundo que dominam metade do PIB mundial.A África tem como esperança de vida, na maioria dos seus países, a idade média de 25 anos. Na América Latina, o número de pobres passou de 50 milhões para 192 milhões em dez anos. Este quadro, que é revoltante, gera a resistência dos pobres, que na América Latina inteira está ligada à igreja progressista.
Você é otimista em relação a força destes movimentos? Eles são a única saída?
Muito. Penso desta forma porque eu vi como estes movimentos começaram. Hoje, o capital não pertence mais ao sistema produtivo e o ser humano está meio obsoleto, não tem trabalho, não tem nada para fazer. E o dinheiro está todo na mão do mercado financeiro. Isto faz parte de um sistema perverso. Estamos vivendo num mundo apocalíptico. Hoje, 20% da população mundial não tem trabalho, o que é uma brutalidade. Daqui a dez anos vai ser pior. Estas pessoas tem que se unir e viver de mutirão com outros valores. E é isso queestá acontecendo. Os milhões de sem-terra são sustentados pela população. A Teologia da Libertação, o feminismo, os movimentos sociais e as igrejas evangélicas ajudam muito nisso. Este é o único caminho, não existe outro. É do enfrentamento que se reavalia os valores humanos.
E a sua vida pessoal?
Foi muito tumultuada, porque foi se modificando na medida em que o século ia se transformando. E o mais importante, a constatação que, de santa, eu virei bruxa.
entrevista
